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Enfermeira, carioca e dama do samba, Dona Ivone Lara é homenageada pelo Ministério da Saúde

Trajetória profissional atravessou a saúde pública, a assistência em saúde mental e a construção de novas formas de cuidado no Rio de Janeiro

26.08.2026

Dona Ivone Lara ficou conhecida por versos que atravessaram gerações, mas sua relação com o cuidado começou muito antes de o samba transformar seu nome em referência nacional. Enfermeira formada no Rio de Janeiro, ela trabalhou por décadas na saúde pública e dedicou parte da carreira à assistência em saúde mental, em um período de mudanças nas formas de compreender e tratar pessoas com transtornos mentais. Em agosto, essa trajetória foi reconhecida pelo Ministério da Saúde, que incluiu a artista entre as 12 personalidades homenageadas in memoriam no Dia Nacional da Saúde.

A cerimônia ocorreu na Galeria de Honra da Saúde, no Edifício-Sede do Ministério da Saúde, em Brasília. O espaço reúne personalidades associadas à construção da saúde pública brasileira. A lista deste ano incluiu também Anna Nery, referência histórica da Enfermagem brasileira, e Nise da Silveira, cuja atuação esteve ligada à transformação da assistência psiquiátrica no país.

Antes do samba, a Enfermagem

A escolha de Ivone Lara ganha outra dimensão quando se considera sua trajetória profissional. Antes de ser conhecida como a “Dama do Samba”, ela estudou Enfermagem e ingressou no serviço público. Formou-se pela Faculdade de Enfermagem do Rio, atual Faculdade Alfredo Pinto, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

Após a formação, passou a atuar no Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro, na zona norte do Rio, onde trabalhou por cerca de 30 anos. Nesse período, ampliou sua formação. Cursou Serviço Social e especializou-se em Terapia Ocupacional, áreas que passaram a integrar sua atuação junto às pessoas atendidas pelos serviços de saúde mental.

Parte importante desse percurso ocorreu na Colônia Juliano Moreira, onde trabalhou com pessoas afetadas por transtornos mentais. A rotina incluía plantões prolongados e o acompanhamento cotidiano dos pacientes, mas também atividades voltadas à compreensão de suas histórias, relações familiares e formas de expressão.

A experiência profissional ocorreu em um momento em que o modelo de assistência psiquiátrica brasileiro ainda era fortemente marcado pela institucionalização. Entre as décadas de 1940 e 1950, hospitais psiquiátricos concentravam grande número de pacientes e procedimentos como lobotomia e eletroconvulsoterapia faziam parte do repertório terapêutico utilizado à época.

A lobotomia consistia em uma intervenção cirúrgica no cérebro para alterar circuitos associados ao comportamento. Já a eletroconvulsoterapia utilizava correntes elétricas para provocar convulsões controladas. Os dois procedimentos fazem parte da história da psiquiatria e ajudam a dimensionar o contexto em que profissionais como Ivone Lara passaram a buscar outras possibilidades de cuidado.

O cuidado para além do diagnóstico

Foi nesse ambiente que Ivone Lara se aproximou da Terapia Ocupacional e trabalhou com Nise da Silveira, que defendia uma abordagem diferente das práticas psiquiátricas predominantes naquele período. A atuação de Ivone, porém, estava inserida na própria prática da Enfermagem e no contato cotidiano com os pacientes.

A música também encontrou espaço nesse trabalho. Cantora e compositora antes mesmo da consagração artística, Ivone utilizava atividades musicais e momentos de convivência como formas de interação com os pacientes. A prática acrescentava à rotina institucional possibilidades de expressão que não dependiam exclusivamente da abordagem clínica tradicional.

A relação entre música e cuidado ajuda a explicar por que sua trajetória profissional permanece associada à história da saúde mental no Rio. A experiência acumulada nos hospitais conviveu com uma formação que reunia Enfermagem, Serviço Social e Terapia Ocupacional.

Da saúde ao samba

A carreira na saúde pública caminhou paralelamente à trajetória artística. Em 1965, Ivone Lara tornou-se a primeira mulher a assinar um samba-enredo de uma grande escola de samba, o Império Serrano, com Os Cinco Bailes da História do Rio.

A conquista ocorreu em um ambiente predominantemente masculino. Durante décadas, mulheres ocuparam espaços importantes nas escolas de samba, mas encontraram obstáculos para participar das alas de compositores e ter suas obras reconhecidas.

A música acabaria se tornando a face mais conhecida de sua trajetória. A atuação como enfermeira, entretanto, permaneceu por décadas como parte de sua vida profissional, até sua aposentadoria do serviço público.

Dona Ivone Lara morreu em 2018, aos 96 anos. Ao incluí-la entre as personalidades da Galeria de Honra da Saúde, o Ministério da Saúde recuperou uma trajetória que ultrapassa a música e se relaciona diretamente com a história da assistência em saúde mental e da Enfermagem no Rio de Janeiro.

Uma homenagem com mais mulheres

A escolha também ocorreu em uma edição da Galeria de Honra marcada pela ampliação da presença feminina. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a curadoria buscou reconhecer mais mulheres em um espaço que historicamente reúne maior número de homens.

“As mulheres são a maioria da população, as principais usuárias da nossa rede pública e as que mais acompanham a família nos atendimentos”, afirmou.

Ao lado de Anna Nery, a presença de Ivone Lara na galeria aproxima duas trajetórias de períodos diferentes da história da Enfermagem brasileira. Uma, símbolo da atuação da categoria em contextos de guerra e cuidado; outra, profissional que construiu sua carreira na saúde pública do Rio e participou de transformações no modo de cuidar de pessoas em sofrimento psíquico.

A homenagem, assim, não acrescenta apenas o nome de uma artista à memória da saúde brasileira. Recoloca em evidência uma parte menos conhecida da história de Dona Ivone Lara: a de uma enfermeira que passou décadas nos serviços públicos do Rio de Janeiro e que encontrou, no cuidado e na música, diferentes formas de estabelecer relações com as pessoas que atendia.

Fonte: Ascom/Coren RJ com informações do Ministério da Saúde

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